Temas & Linhas de Investigação

Os temas e áreas de investigação expressam os problemas teóricos e objetos que são abordados nas pesquisas dos membros. Aqui apresentamos em linhas gerais os conteúdos desses problemas e objetos que estão sendo desenvolvidos nos trabalhos dos pesquisadores.  O NEP se propõe a estudar o poder e as formas de resistência a partir de três eixos de investigação e problematização: 1) Anarquismo, Pensamento e Práticas Insurgentes; 2) Centralização, monopolismo e resistências; 3) Natureza & Sociedade. Esses eixos visam exatamente permitir a percepção da multiplicidade de interseções e formas de objetivação do exercício do poder e das formas de resistência.

O Núcleo de Estudos do Poder (NEP) tem suas pesquisas fundamentadas em dois tipos de referências teóricas. No que denominamos de teoria geral estão agregados dois métodos de análise, a dialética serial e o materialismo sociológico (que conjuntamente conformam a abordagem coletivista em ciências sociais). Essa teoria possui os fundamentos epistemológicos da interpretação e explicação dos fenômenos sociais e históricos, com teses e conceitos sobre as relações natureza/sociedade, sobre a origem e funcionamento do Estado e sobre economia política.

O materialismo sociológico e a dialética serial tem basicamente duas teses gerais sobre o funcionamento do mundo natural e social: 1) todas as forças na natureza e sociedade humana são fundadas na dialética básica de ação e reação, o mesmo se dando na relação entre mundo social e mundo natural; 2) a economia é um sistema de contradições e a política é a dialética entre autoridade e liberdade. No plano da interpretação e explicação sociológica isso se traduz na tese de que a economia capitalista é centrada na expropriação, exploração e no desenvolvimento de suas próprias contradições; o Estado e a ideia econômica de Estado são baseadas na ideia de centralização e autoridade, e por isso, têm uma função estrutural de dominação, independentemente das formas de governo e regimes políticos. Por fim, o Estado e o Sistema Econômico só podem ser compreendidos na sua série de relações, na sua totalidade bem como nas suas contradições e instituições particulares. Essas premissas permitem que pensamos a realidade histórico-social de forma crítica, interpretando e explicando as condições de dominação e libertação. Esse método foi desenvolvido posteriormente por Georges Gurvitch com sua proposta de uma “dialética empírico-realista” que compõem também o método de análise.

No que denominamos de teorias particulares empregamos três conjuntos de abordagens de objetos e temas que agregamos sob três designações: 1) o processualismo, direcionado especialmente para o estudo das estruturas sociais e culturais da política e economia, bem como das relações natureza/sociedade; 2) o populismo histórico, uma sociologia e história vista de baixo, do protagonismo do povo trabalhador e explorado nos acontecimentos sociais e políticos, tomando como objeto movimentos sociais e sindicalismo, relações e processos de trabalho no campo e na cidade); 3) substantivismo político, para análise interna do funcionamento do Estado e das estruturas sociais da política de Estado, tomando como objeto as políticas públicas e seu papel na reprodução das relações de dominação. Essas abordagens são convergentes em determinados aspectos (visão materialista, crítica da dominação e exploração, visão processual da realidade), sendo empregadas para campos específicos de investigação. Não supomos uma identidade entre autores como membros de “escolas”. Na realidade supomos apenas que os autores têm convergências significativas que fazem com que contribuam para o estudo de temas particulares, por meio de métodos, conceitos ou hipóteses. Logo o processualismo, o populismo histórico e o substantivismo político são essa agregação por convergência de posicionamentos críticos.

O processualismo é uma abordagem da sociologia, da antropologia política, da antropologia ecológica e da antropologia simbólica. O processualismo foi uma reação crítica aos paradigmas das ciências sociais centrados na ideia de ordem, como o positivismo, o estruturalismo e o funcionalismo e tendeu explicitar o conflito e as contradições sociais, bem como interação entre o local e o mundial. São objetos de estudo os sistemas políticos e território, o nível local da política, os rituais, a relação entre natureza, cultura e tecnologia, tendo desenvolvido uma crítica sistemática do saber colonial, do etnocentrismo e do racismo. Nesse campo estão autores como Georges Gurvitch, Max Gluckman George Balandier, Victor Turner, Julian Steward, Imannuel Wallernstein, Fredrik Barth, Pablo G. Casanova, João Pacheco de Oliveira Filho.

O populismo histórico é um posicionamento sociológico e historiográfico que agrupa todas as abordagens que valorizam o protagonismo popular nos processos históricos e sua agencia sociopolítica para escrita e compreensão da história. Marshal Shalins falou em uma de suas obras que as histórias vistas de baixo eram “populistas”, num sentido pejorativo. Aqui retomamos a ideia de uma sociologia e história vista de baixo e o populismo não como categoria pejorativa, mas para destacar a centralidade do protagonismo popular. O populismo histórico é então uma forma de visibilizar os saberes e papel dos grupos subalternos dos trabalhadores, mulheres, povos, minorias do campo e da cidade. Estas abordagens foram desenvolvidas no estudo crítico da escravidão, dos trabalhadores, do movimento operário e das mulheres, dos camponeses e dos grupos populares em geral. Nesse campo estão colocados autores como Franz Fanon, Hhomi Bbabha e Syed H. Alata, Gayatri Chakravorty Spivak, Edward Said, James Scott, Michel Foucault, Conrnelius Castoriais, Alan Bihr.

O substantivismo político é um método específico para análise de políticas públicas, do Estado e da relação Estado/Sociedade, sendo uma adaptação da abordagem substantivista em sociologia econômica. O formalismo na análise da economia tendia a tomar as categorias econômicas como naturais, como formas universais do pensamento humano e buscava encontrar essas categorias em todas as sociedades na história. Karl Polanyi formulou uma crítica em que apresentou a abordagem “substantivista”, que significava que o invés de supor a universalidade das categorias racionais, deveríamos observar como as categorias estavam embebidas nas estruturas sociais e como seu significado substantivo (concreto) era particular, específico dessa estrutura social (das relações de classe, da cultura). Nesse sentido, empregamos um procedimento análogo: consideramos o Estado e as políticas públicas como categorias não universais, e como elas podem ser melhor compreendidas não somente por meio de sua racionalidade interna, mas da organização social da política pública, considerando os diferentes processos e racionalidades políticas. Nesse campo referências importantes são Peter Gurevitch, Georges Gurvitch , Karl Polanyi e Michel Foucault.