150 anos da morte de Proudhon: saber subalterno e sociologia insurgente

 

Pierre-Joseph_Proudhon

Andrey Corderio Ferreira, professor UFRRJ

Em 19 de janeiro de 1865 morreu Pierre-Joseph-Proudhon que, ao lado de Mikhail  Bakunin, é o principal teórico do sindicalismo e do anarquismo internacional no século XIX. Suas teses sobre economia política, federalismo e organização social são essenciais à formulação de teses que ajudaram na fundação das principais associações de trabalhadores e, em razão disso, influenciaram na constituição do movimento sindicalista revolucionário. Além disso, como veremos, essa atividade teórico-prática lançou certas bases analíticas e conceituais da ciência social e sociologia moderna.

A obra de Proudhon no Brasil e em diversas partes do mundo é comumente analisada a partir da (e reduzida à) crítica de Marx ao “Sistemas das Contradições Econômicas” realizada em Miséria da Filosofia, sendo muito pouco estudada, seja no conteúdo, seja na influência que exerceu sobre o movimento operário e socialista. Esse juízo historiográfico sobre a irrelevância do pensamento de Proudhon será reafirmada na nota cronológica escrita por Marx. A historiografia marxista do movimento operário e socialista reproduz de forma acrítica os juízos de Marx sobre Proudhon. Dessa forma, reproduz aquilo que denominamos de anarquismo como anti-conceito, ou seja, ao anarquismo não é reconhecida nenhuma formulação política ou científica, apenas propriedades inversas e negativas ao marxismo (Ferreira, 2014). Essa abordagem, que é reproduzida inclusive em historiadores de diversas matrizes ideológicas, tem dois problemas metodológicos. Em primeiro lugar, a análise do conteúdo do pensamento de Proudhon é precária, não existe um procedimento de apresentação compreensiva antes da crítica, apenas parte-se da reafirmação do juízo que Marx fez das mesmas; em segundo lugar, se explica esse conteúdo atribuído à Proudhon em termos economicistas, sendo o principal argumento de que Proudhon seria “pequeno-burguês” em razão da sua origem de classe de artesão e seu pensamento expressaria isso. A abordagem historiográfica, então, não consegue nem compreender o pensamento proudhoniano, nem explicar sua complexa inserção na estrutura do capitalismo do século XIX.

Uma análise substantiva do pensamento de Proudhon foi realizada por Georges Gurvitch, sociólogo coletivista (Gurvitch; Proudhon, 1965) e mesmo por Durkheim, para quem Proudhon aparece como um dos precursores da sociologia (Durkheim, 1982). Nessas obras, Proudhon é indicado como um dos principais formuladores de conceitos, teses e métodos da economia política e sociologia. Entretanto, pouco é analisado de sua relação com o movimento operário e a ação política, ou quando sim, não se menciona sua relação com o anarquismo. Mas essa análise já é suficiente para mostrar a fragilidade da historiografia dedutiva, que deduz a análise de conteúdo do pensamento de Proudhon da crítica de Marx, desconsiderando as evidências documentais e se fragilizando assim como interpretação.

É na historiografia anarco-comunista que Proudhon é colocado como uma das figuras canônicas do anarquismo e do sindicalismo. Mas nessa abordagem, o conceito de anarquismo tem duas propriedades, ele é anacrônico e naturalizado: o anarquismo é considerado como um traço da natureza humana (Joll; Duarte, 1977; Tragtenberg, 1987; Woodcock, 2002; Ferreira, 2014). Uma crítica tem sido realizada no Brasil e em outras partes do mundo a este conceito “elástico” e anti-científico de anarquismo, buscando uma redefinição mais precisa que permita uma reconstrução da história do anarquismo e sindicalismo (Schmidt; Van der Walt, 2009; Ferreira, 2014). Lucien van der Walt no seu livro “Chama Negra” formula uma crítica análoga à nossa formulação do conceito elástico de anarquismo, e propõe definir o anarquismo como fenômeno da “Primeira Internacional”. Isso então gera uma dificuldade sobre o enquadramento de Proudhon e sua obra. Se o anarquismo tem sua constituição efetiva por meio da materialização do “dualismo organizacional” (da relação entre a organização anarquista e a organização de massas, a AIT), Proudhon estaria excluído dessa tradição anarquista, logo ele que foi o primeiro a reivindicar o anarquismo como categoria política positiva? Em primeiro lugar, entendemos que essa questão pode ser abordada de duas formas. Se considerada como um movimento taxonômico, de atribuir etiquetas de inclusão e exclusão, ela é uma falsa questão e, mesmo, sem importância. Mas do ponto de vista teórico e histórico, ou seja, da análise dos processos reais é uma questão relevante. A reposta está no nosso entendimento na teoria: uma história “heróica”, centrada no indivíduo, leva a falsas questões apontadas acima. Mas quando consideramos as forças coletivas e a relação de Proudhon com o “proudhonismo” (conjunto de militantes e ativistas que reivindicavam as ideias proudhonianas), esse problema fica resolvido. Nesse sentido, poderíamos apresentar a seguinte tese: o proudhonismo (que engloba a atividade do desenvolvimento do sistema teórico de Proudhon e suas apropriações contraditórias) foi a força que constituiu o anarquismo dentro da AIT e esta força passou por transformações de nominação que confundem alguns historiadores (as categorias de mutualismo, coletivismo, bakuninismo). Dessa forma, se considerarmos Proudhon como um indivíduo isolado a resposta à questão seria não, já que Proudhon não fez parte da AIT; se rompermos com o individualismo metodológico e considerarmos o proudhonismo como fenômeno coletivo a resposta é sim. Essa é uma ambiguidade constitutiva da história da AIT e do anarquismo. A teoria e a prática de resistência operária proudhonista é que geraram a tradição anarquista. O proudhonismo é um fenômeno da década de 1850-60 e é essa força coletiva que irá constituir a “grande tradição anarquista”.

Mutualismo, coletivismo, ação direta: as transformações históricas dos símbolos do anarquismo

Proudhon elabora sua teoria a partir do saber e do fazer operário. Associação e Mutualidade eram categorias do movimento social, da formação dos sindicatos e cooperativas. A constituição do proudhonismo no movimento operário francês seria a expressão ideológica do “obreirismo” (no sentido positivo, como doutrina da afirmação da classe trabalhadora como sujeito histórico e da afirmação do direito de associação dos trabalhadores como fator positivo da ordem política) que reconhecia: 1) a divisão da sociedade em classes e a necessidade de uma organização dos trabalhadores independente da oposição republicana e do setor monárquico; 2) que essa associação visava não somente interesses e resistência contra a exploração, mas, especialmente, transformar a estrutura de classes fundada na propriedade privada; 3) que a ação dos trabalhadores não poderia se restringir a candidaturas operárias e que a práxis da sua política era mais ampla e deveria ser voltada para sua autoconsciência; 4) que a ordem política que deveria surgir seria “anárquica e mutualista”, ou seja, o federalismo (a federação agrícola-industrial), como corolário da centralidade dos trabalhadores e da igualdade e liberdade. Esse obreirismo então fundia o anarquismo como forma de governo e a economia com a defesa de certa prática associativa e política centrada na classe trabalhadora. O anarquismo surge então como parte da emergência dessa perspectiva trabalhista, de afirmação teórica, ontológica e política da centralidade do trabalho e dos trabalhadores na economia e sociedade –afirmando a libertação da classe por si.

 

É por isso que ele vai se fundir tanto com a prática operária, gerando assim o associativismo operário e o “sindicalismo” da idade heroica. O anarquismo, que Bakunin irá elevar ao nível de movimento internacional, ao acrescentar formas práticas e organizativas que o próprio Proudhon tinha colocado como condição necessária da capacidade política, é assim produto dessa reflexão proudhoniana.

Uma das grandes dificuldades da historiografia é que esse processo foi expresso por símbolos variados, em termos nacionais e também contextuais. Por isso, alguns autores ao associarem Proudhon ao mutualismo, consideram que Proudhon era reformista em razão da prática mutualista ser “reformista”. Esse equívoco deriva da pouca densidade das fontes e o pouco rigor metodológico. O mutualismo, baseado nas ideias de Proudhon, teve pelo menos duas grandes expressões: um mutualismo moderado e parlamentar (expresso pelo manifesto dos 60 operários do Sena) e um mutualismo de esquerda ou radical, desenvolvido por dirigentes de associações mutualistas como Varlin, que seria um dos principais animadores da AIT. Esses mutualistas radicais, franceses, belgas e suíços seriam os elaboradores da concepção coletivista, que enfatizava o papel da associação coletiva na emancipação operária e na revolução social. Logo, o coletivismo se tornou a concepção dominante dentro das associações, e longe de ser uma ruptura com o mutualismo, ele foi sua radicalização revolucionaria. Bakunin irá se definir como proudhonista, e o bakuninismo é assim um tipo de interpretação revolucionária da obra de Proudhon realizada por ele e, especialmente, pelos teóricos da Federação do Jura. Logo, as categorias mutualismo, coletivismo devem ser compreendidas dentro do seu contexto de enunciação, e não como categorias transcendentes e em si. Mutualismo, coletivismo, foram símbolos empregados para demarcar a vinculação de uma prática de resistência social com uma teoria política; o proudhonismo foi assim sucessivamente e simultaneamente mutualista, coletivista e bakuninista. Mas o elemento fundamental de todas essas categorias e símbolos foi que elas vincularam o projeto da libertação da classe por si com uma prática de resistência concreta.

Outro símbolo que seria fundamental foi o conceito de ação direta, elaborado no início do século XX pelo sindicalismo revolucionário (especialmente por Emile Pouget, ativista da CGT francesa): ação direta é um conceito complexo, mas ele sintetiza perfeitamente a teoria da classe por si: é a ação dos próprios trabalhadores – ação de resistência e ação associativa – que pode libertar a classe trabalhadora coletivamente, não é nenhuma ação de cima e de fora.

O anarquismo como fenômeno histórico está ligado ao surgimento e transformações do proudhonismo. Por outro lado, a teoria da classe por si, elaborada por Proudhon, mutualistas e coletivistas, sintetizada no conceito de ação direta, tornou-se símbolo de uma concepção teórica e política de resistência anticapitalista. Essa é a importância fundamental do pensamento de Proudhon – marginalizado, subalternizado e negado pelos paradigmas dominantes – e de sua sociologia insurgente.

Durkheim, E. (1982). El socialismo. Madri, Editora Nacional.

Ferreira, A. C. (2014). Anarquismo, pensamento e práticas insurgentes. De baixo para cima e da periferia para o centro:textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin, Niterói, Editora Alternativa. I: 21-61.

Gurvitch, G. and P.-J. Proudhon (1965). Proudhon: sa vie, son Óuvre, avec un expos de sa philosophie, Paris, PressesUniversitaires de France.

Joll, J. and M. V. D. Duarte (1977). Anarquistas e anarquismo.Lisboa: PRODIAT.

Schmidt, M. and L. Van der Walt (2009). Black Flame: The revolutionary class politics of anarchism and syndicalism, Oakland, AK Press.

Tragtenberg, M. (1987). Kropotkin: textos escolhidos. Porto Alegre, L&PM.

Woodcock, G. (2002). História das ideias e movimentos anarquistas: o movimento. Porto Alegre.

 

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2 respostas para 150 anos da morte de Proudhon: saber subalterno e sociologia insurgente

  1. ricardo ramos rugai disse:

    Olá companheiros, eu gostaria de compartilhar com vcs o apêndice onde procurei discutir algumas posições atribuídas a Proudhon…mas não achei como anexar arquivos por aqui…enfim se quiserem ler e discutir me digam por onde envio, abraço

  2. NEP disse:

    Prezado, obrigado pela mensagem. Use o email do NEP para envio de arquivos e sugestões. O NEP está divulgando o dossiê “Lutas Sociais e Pensamento Anarquista” da Revista em Debate e você pode também enviar artigos para tal publicação até 30 de junho. Grato.

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