A festa e a revolta: confrontando as leituras de junho de 2013 com uma antropologia política das rebeliões populares

Andrey Cordeiro Ferreira, Professor da UFRRJimage

Os inúmeros protestos (em forma e conteúdo) de junho de 2013 no Brasil foram desde o primeiro momento objeto de luta pela definição do “ser” histórico dos acontecimentos. Estes acontecimentos constituem um fenômeno extremamente importante. De maneira geral, podemos dizer que ele provocou imediatamente um profundo desafio teórico e político já que “O levante, agora persistente, na Turquia foi seguido por uma revolta ainda maior no Brasil que, por sua vez, foi acompanhada por manifestações menos noticiadas, mas não menos reais, na Bulgária. Obviamente, estes protestos não foram os primeiros, e muito menos os últimos, em uma série realmente mundial de revoltas, nos últimos anos” (Wallerstein, 2013).

Os protestos populares de junho de 2013 marcaram profundamente a sociedade brasileira. O Estado, na figura da presidente da República e dos governadores (de estados como o Rio de Janeiro e São Paulo), foi colocado numa encruzilhada política. Entre os dias 17 e 20 de junho um furacão, expresso no movimento de massas, varreu o Brasil de norte a sul, paralisando centros de poder e criando uma nova onda de debates ideológicos. Os jornais e revistas de grande circulação (O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Veja, Isto É) lançaram vários alarmes em suas editorias. Como um trecho da reportagem da revista Veja:

“Quando se espalhou por São Paulo um protesto contra o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus, todo mundo sentiu que a coisa era bem maior. Tão maior, mais inebriante, mais mobilizadora, mais assustadora e mais apaixonante que, em uma semana, multidões bem acima de 1milhão de pessoas jorraram Brasil afora na histórica noite de quinta-feira. Todos os parâmetros comparativos anteriores, como Diretas Já e Fora Collor empalideceram diante do abismo aberto entre os representantes dos poderes de um lado, e o poder dos que se sentem muito mal representados, de outro. A presidente acuada, as instituições em estado de estupor, os políticos desaparecidos e a turbamulta subindo a frágil passarela do Palácio do Itamaraty criaram outro sentimento estarrecedor: é muito fácil quebrar o vidro que separa a ordem do caos”

Esse é um ponto fundamental: os protestos de Junho de 2013 romperam os parâmetros, quantitativos e qualitativos da ação coletiva no Brasil. Para além de uma luta real por direitos, contra formas de poder, existe também uma luta pelo real, para conseguir definir ontologicamente a natureza do “ser” do “acontecimento”, que nesse caso, é o ser da própria história. Nessa luta, os principais instrumentos de poder foram usados, especialmente, os intelectuais, a imprensa e os meios de comunicação.

A nossa tese aqui é que os protestos de junho devem ser interpretados como parte de um processo de transformação cultural e simbólico, como uma revolta associada à ruptura com um aspecto central da cultura hegemônica, o mito da pátria de chuteiras ou aquilo que Roberto da Matta chamou de a ideologia do futebol brasileiro (Da Matta, 1982). Essa revolta se deu no contexto do maior ritual dessa cultura hegemônica, as festas populares nacionais em torno do da Copa do Mundo de Futebol, explicitando contradições materiais e simbólicas da sociedade brasileira. Iremos, a partir da abordagem da antropologia política, apresentar uma interpretação dos protestos de junho e uma crítica das leituras realizadas pela sociologia, ciência política e economia.

Leituras acerca de Junho: a “surpresa”, o “enigma” e a “festa popular”

Quais foram as interpretações que surgiram desde o primeiro momento?  Podemos dizer que foram de três tipos:

1 ) uma abordagem elitista-conservadora, gerada especialmente pelos organismos de governo, empresas e meios de comunicação, mas que permeiam também as abordagens liberal e marxista;

2) uma abordagem liberal no livro “Junho de 2013: a sociedade enfrenta o Estado”, organizado por Rubens Figueiredo[1];

3); abordagens marxistas ortodoxas e heterodoxas, reunidas especialmente no livro “Cidades Rebeldes”.

Esse elitismo foi enunciado de forma absolutamente categórica pelo discurso da presidente Dilma Roussef, no auge da crise sociopolítica:

“Todos nós brasileiros e brasileiras estamos acompanhando com muita atenção as manifestações que ocorrem no Brasil. Elas mostram a forca de nossa democracia e o desejo da juventude de fazer o Brasil avançar. Se aproveitarmos bem o impulso dessa energia política podemos fazer melhor e mais rápido muita coisa que o Brasil não conseguiu realizar por causa de limitações políticas e econômicas. Mas se deixarmos que a violência nos faça perder o rumo estamos não apenas desperdiçando uma grande oportunidade histórica como também correndo o risco de colocar muita coisa a perder. Como presidenta tenho a obrigação de ouvir as ruas como dialogar com todos os segmentos mas tudo dentro dos primados da lei e  ordem indispensável para democracia”.  (Discurso de Dilma Roussef, Junho de 2013).

Teríamos dois pontos a observar: presidente Dilma Roussef, falando como Governo mas também como partido, assume como posição ideológica o “republicanismo” como valor “em si”, como forma pura da qual o Estado é manifestação neutra. Esse elitismo é caracterizado por três elementos: 1) ele concebe a ação da sociedade a partir do modelo de minorias que manipulam maiorias; 2) a ordem é imanente à própria elite, combater a elite e sua ordem é romper o pacto social e com as condições de existência da sociedade; 3) a sociedade e a ação coletiva são expressão dessa ordem, a sociedade como um todo jamais poderia atentar contra ela, por isso, somente a “minorias” é atribuída a responsabilidade pelas ações destrutivas. Esse elitismo retoma imagens características da formação histórico-social brasileira, como a ideia do “pacificismo inato”, da “cordialidade” do brasileiro.

O livro organizado por Figueiredo reúne algumas das análises que que sugerem que os protestos teriam sido realizados especialmente pela juventude de classe média e motivados especialmente pela difusão das novas tecnologias de comunicação, como as redes sociais (Figueiredo et al., 2014). Aí estão formulados uma visão liberal do tema. No caso, o que o autor irá enfatizar é a ideia da surpresa, afirmando que “aconteceu um AVC sem que o paciente fosse hipertenso” e arremata “não havia sinais pelos instrumentos consagrados pelas ciências sociais- pesquisas, indicadores sociais e indicadores econômicos capazes de alcançar o que ainda estava por vir”. Além disso, Junho surge como um fenômeno descolado do antes e do depois, “As manifestações que ficaram conhecidas como jornadas de junho… foram seguidas imediatamente  por fenômenos que, embora bem menos espetaculares, conseguiram tirar o foco da movimentação  junina: a violência destruidora dos black blocs, o jovem consumismo  dos rolezinhos e o grevismo corporativo oportunista, que assaltou algumas cidades (Figueiredo et al., 2014).O argumento da “surpresa” de Junho está ancorado especialmente em uma tese de fundo sobre a natureza do capitalismo brasileiro:

“A vida do brasileiro, no período FHC-Lula, melhorou substancialmente, com estabilização da moeda, criação de uma ampla rede de proteção social, movimentação da economia das pequenas cidades, alta considerável do consumo e a famosa ascensão à classe  (…) com celular na mão, carro na garagem, televisão de tela plana na sala, nada indicava que o brasileiro se sentisse estimulado a ir às ruas por motivação econômica” (Figueiredo et al., 2014).

Os argumentos contidos no livro podem ser resumidos da seguinte maneira: 1) não existem bases econômicas para explicar os protestos de 2013, uma vez que há o entendimento de que o capitalismo brasileiro elevou os níveis gerais de vida nas últimas duas décadas; 2) os protestos foram resultantes de um movimento abstrato da opinião pública que, desencontrada com a pratica governamental, produziu os protestos de massa. Não existiam condições econômicas e sociais que explicassem os protestos, daí a “surpresa”. Por outro lado, há um entendimento de que os “atores” foram igualmente abstratos “Minha tese é a de que alguns fatos foram irritando a opinião pública e, numa escala crescente, geraram protestos nas redes sociais – que foram também as grandes mobilizadoras das manifestações e culminaram com a catarse popular”. (Figueiredo et al., 2014),p. 32). Temos aqui então um tipo de neoidealismo, que  afirma um determinismo tecnológico, em que as formas modernas de comunicação adquirem centralidade nos processos sociais. Essa então é a tese pode receber o nome de “tese  da surpresa”. A tese da surpresa estabelece duas teses fundamentais sobre o capitalismo brasileiro e sobre os protestos de junho:  1º) o capitalismo brasileiro não tinha contradições significativas, o desenvolvimento econômico elevou as condições gerais de vida; 2º) Junho teria uma ruptura histórica com o antes e o depois; ele nem teria identidade com organizações coletivas (sindicatos, movimentos sociais) nem com outras formas de ação coletiva (os Black Blocs, as greves) que são “desdenhadas “, como é possível ver pelo tom do autor. Assim junho surge como surpresa e como enigma, como um fato “em si”, sem causa e sem consequência, como um ato estanque no universo apenas determinado pela opinião pública. É uma tentativa de depurar Junho das relações contraditórias com as formas organizativas sindicais e partidárias, e também com as formas de ação coletivas surgidas no levante.

Uma segunda análise foi desenvolvida por diferentes tipos de marxismo ortodoxo e heterodoxo reunidas no livro “Cidades Rebeldes” (Harvey et al., 2013). É no campo do marxismo ortodoxo, das análises de Mauro Iasi, Giovanni Alves e Ruy Braga que encontramos uma retomada da discussão clássica das classes sociais, ou pelo menos alguns aspectos dela. O conjunto de artigos de Iasi, Pode ser a gota d’água: enfrentar a direita e avançar a luta socialista, A cura, Luta ou fuga e O Estado e a violência” vai retomar os principais traços da abordagem marxista clássica, especialmente os pressupostos ontológicos sobre ação de classe e pela relação entre sujeito, no sentido ontológico, e política, no sentido histórico. Iasi está principalmente preocupado em analisar as palavras de ordem contra partidos e sindicatos e o seu significado: “Por isso, não nos espanta que a explosão social se dê da forma como se deu e traga os elementos contraditórios que expressa: despolitizada e sem direção, ainda que com alvos precisamente definidos: os governos e aquilo que representa a ordem estabelecida. A despolitização se expressa de várias formas, mas duas delas se apresentam com mais evidentes: violência e antipartidarismo. (Mauro Iasi, 2013)

O trecho acima indica a avaliação de que os protestos então eram compreensíveis, a negação dos partidos encontrava raízes na objetividade histórica de uma relação entre o Partido e um Bloco de Poder. Mas o argumento principal é a afirmação categórica do desmonte da consciência de classe que teria sido provocada pelos protestos de junho, ao questionar as formas organizativas (partido/sindicato) estaria se questionando a própria “consciência de classe”:

“ O sentido e futuro das manifestações estão em disputa e temo em dizer que a esquerda está perdendo esta disputa para um sentido perigosamente direitista e conservador. Recentemente afirmei que a experiência política do último período, ao contrário do que alguns esperavam, havia produzido um desmonte na consciência de classe e se expressava em uma virada conservadora no senso comum. Este processo ficou evidente nas manifestações, para além da intenção de seus originais promotores” (Mauro Iasi, 2013).

Podemos dizer que o principal  movimento de Mauro Iasi é argumentar que o questionamento da “esquerda” é um questionamento da forma de representação clássica do marxismo (o complexo Partido/Sindicato) que seria a forma única de objetivação da consciência de classe. A negação dessa forma de objetivação só poderia ser a negação da consciência de classe, e logo, da possibilidade que da consciência econômica de classe se chegue ao domínio do político, ou da atividade sindical-partidária. Ou seja, o vanguardismo marxista, não sendo uma réplica do elitismo, termina também por reificá-lo, pois nenhuma ação de classe é possível fora do complexo partido-sindicato. No texto de Iasi temos uma teoria não das classes sociais, não da luta de classes, mas do porque as manifestações de junho não puderam expressar o desenvolvimento da consciência de classe. Em grande medida, é um texto que não consegue romper com uma análise do que os marxistas denominam de “superestrutura”.

Os textos “A revolta do precariado no Brasil” de Giovanni Alves são os únicos que tentam pensar em que medida as manifestações se ligam a uma estrutura de classes e a luta de classes sob um regime particular de acumulação capitalista. O próprio título do artigo fala da “revolta do precariado”, como podemos ver abaixo:

 

“A onda massiva de protestos a que assistimos nas ruas das cidades brasileiras é o que poderíamos considerar como sendo a revolta do precariado, camada social da classe do proletariado constituída por jovens altamente escolarizados desempregados ou inseridos em relações de trabalho e vida precárias (a pesquisa DataFolha de 21 de junho de 2013, constatou que a maioria dos manifestantes – 63% – têm entre 21 e 35 anos; e 78% têm ensino superior). Deste modo, o conceito de precariado possui um nítido recorte geracional e uma candente inserção de classe …” (Giovanni Alves, 2013)

Essa afirmação de Giovanni Alves é importante porque foi a única a situar teoricamente o levante a dois processos distintos: a precarização das relações de trabalho e produção; a configuração de classe do proletariado. Essa afirmação abre então uma discussão teórica sobre classes sociais, seu papel, suas formas de ação e retoma o problema da “consciência”.

A inexistência de direção política (relação partido/sindicato) apenas indica a “carência de futuridade” que é apenas outra forma de afirmar a irracionalidade intrínseca da condição de classe do “precariado”. Essa irracionalidade coloca-se numa posição “ambígua”, suscetíveis a ideologia de “classe média” e do “consumismo” que seria assim a forma pela qual esses movimentos seriam “cooptados”. Logo, a estrutura de classes e a própria atividade de classe em si não tem lugar, daí a delegação para o Estado (e o governo e coalizões partidárias) da tarefa histórica de realizar as transformações sociais. Fora desse âmbito o “precariado” apenas é uma espécie de marionete nas mãos de vaguardas e elites. Essa definição de classe de Giovanni Alves, no entanto não contraria o enunciado da irracionalidade imanente das manifestações, ao contrário, teoriza sobre essa irracionalidade ao atribuir a uma contradição entre a condição de precarização nas relações de produção, posição de classe (ou a objetividade da classe em si) e a forma “psicológica” da classe para si, que desprovida de uma capacidade de produzir um projeto (a carência da futuridade intrínseca), fica à mercê das manipulações das vanguardas, como podemos ver:

“Por um lado, a parcela do precariado despolitizado e indignado torna-se refém das ideologias reacionárias de direita ou extrema direita. Por outro lado, a parcela do precariado mais politizada e inquieta com a condição de proletariedade tende a assumir, em sua ampla maioria, a ideologia do proletariado radicalizado que encontra no esquerdismo seu leito natural. Estes são os pólos antípodas da alma do precariado, manipulados, em seus limites antitéticos, pelas forças políticas da esquerda e extrema esquerda (por exemplo, comunistas revolucionários, anarquistas ou anarcoliberais) e, na outra ponta do espectro político, pelas forças políticas da direita liberal, reacionária e neofascista (Giovanni Alves, 2013).

A abordagem do marxismo ortodoxo coloca outras questões teóricas, mas apesar disso, as suas conclusões são extremamente assemelhadas ao do discurso e análise elitista: afirmam a irracionalidade das manifestações, afirmam que a inexistência de uma direção política (ou seja, da direção das organizações formais existentes é indicador da inexistência de consciência de classe e por fim atribui a capacidade de agencia para superar as contradições sociais ao próprio sistema político ou suas organizações como forma de objetivação histórica (o complexo partido/sindicato). O traço principal de tais análises reifica também vários aspectos das análises anteriores: em primeiro lugar, o vanguardismo, a classe (o proletariado) e especialmente sua camada precarizada, é vista como incapaz de “por si”, constituir novas formas organizativas. A abordagem marxista no geral concebeu a existência de um enigma na relação entre classes e consciência de classe; os protestos teriam mostrado que setores da classe não encontravam a consciência de classe, ou encontravam uma falsa consciência, e por isso, a ação coletiva era irracional e errática.

Essas abordagens, elitista, liberal e marxista são essencialmente estatistas, elas só conseguem conceber o protagonismo do Estado; as classes só podem ter alguma agencia no e através do Estado, mediado por direções, organizações de representação (partidos/sindicatos) e vanguardas ou elites. As classes existem em si, mas só chegam a atuar “para si” por e através dessa mediação estatista. Uma sociedade que não aja por meio dos órgãos de representação (Partido/Sindicato) é então irracional. Por isso, os protestos de junho são relegados a uma forma patológica, o conceito de sociedade é concebido como equivalente de organizações formais que expressam a relação indivíduo-sociedade ou classe-consciência.

Essas abordagens fracassam no nosso entendimento ao não conseguir compreender nem as características estruturais do capitalismo brasileiro, nem o tipo de ação coletiva que emergiu durante os protestos. Em primeiro lugar, existe um reducionismo metodológico. As abordagens acima abstraem, ao enfatizar a “surpresa” e o “enigma da consciência de classe”, o contexto concreto dos protestos contra o aumento das passagens: tais protestos aconteceram durante  uma “festa popular”, oficial e não oficial, nacional e internacional, que era a “Copa das Confederações da FIFA”, que está relacionada a aspectos centrais da identidade nacional brasileira.

Quando consideramos uma análise da estrutura de classes nos seus múltiplos aspectos (de renda, violência policial, acesso à direitos e crédito e outros indicadores) podemos observar que o capitalismo brasileiro não assumiu a forma idílica apresentada acima. Ao contrário, dois aspectos desse capitalismo são fundamentais para compreendermos a revolta: a financeirização da sociedade, em que numa sociedade de baixos salário o crédito bancário se torna um meio de vida, e por isso uma relação de subordinação; a precarização do trabalho, já que a formalização do emprego não significa a obtenção de direitos sociais e trabalhistas (para se ter uma visão mais detalhada sobre essas contradições com dados oriundos de pesquisa( socioeconômica, ver os Relatórios de Pesquisa sobre os Protestos de Junho do NEP).

 Dominação e resistência simbólica: do vândalo ao Black Bloc

O primeiro ponto que colocamos então é a necessidade de romper com a abordagem da surpresa, do enigma e abordar o tema a partir do contexto concreto: junho era um momento de uma grande festa popular caracterizada pela ambivalência em torno da identidade nacional. Os protestos contra o aumento das passagens foram convocados dentro de um contexto de festas populares e oficiais em torno do futebol, como parte de uma relação de crítica e inversão simbólica das mesmas.  Essa festa deu um caráter nacional e o seu fim tirou o caráter nacional aos protestos, descentralizando os mesmos em processos específicos de categorias e situações regionais. Nem surpresa, nem enigma, os protestos de junho devem ser pensados como atividades que se combinaram com festas da cultura popular brasileira.

Um elemento fundamental é que, como observaram diferentes analistas, as festas populares por operarem sempre com a ambiguidade do símbolo, a brincadeira e a contestação do poder e da autoridade, foram diversas vezes ocasiões em que rebeliões e levantes populares ocorreram (Balandier, 1982; Scott, 2000)[2]. As festas são então momentos de ambivalência, em que os dominantes ao mesmo tempo pretendem criar/reproduzir a coesão em torno das autoridades e da ideologia hegemônica, mas ao criarem um contexto em que os dominados são chamados a ação coletiva, esta gera uma grande margem de imprevisibilidade, pois eles podem usar esse momento para expressar visões de mundo anti-hegemônicas e práticas de resistência que questionam sua posição de subalternidade.

Um exemplo foi a prática de inversão simbólica, generalizada durante os protestos de junho. Um elemento muito comum das festas populares é a inversão e ridicularização dos discursos dominantes. Operações simbólicas características de festas como o carnaval, o cavalo-marinho e outras manifestações da cultura popular.  A produção audiovisual realizada durante junho de 2013 e também depois explicita esses procedimentos.  O vídeo abaixo foi divulgado pelo youtube e é uma sátira política do comercial da Fiat “Vem para Rua” e é representativo desse processo:

 https://www.youtube.com/embed/iGai5q27pUg“>Vem para Rua

“Vem para rua – sátira”

A composição das imagens mescla cenas da festa do comercial da Fiat, com as condições precárias do trasnporte público, da violência policial nos protestos e os manifestantes cantando “”sem violência”. Depois são retomadas as imagens de manifestantes mascarados, passeatas e mais violência. O vídeo termina com duas imagens que são emblemáticas no nosso entendimento: um pequeno vídeo de um manifestante dançando (ridicularizando e desafiando a polícia) e uma ironia: Liberté, Egalité e Vingraré (em alusão ao vinagre utilizado para neutralizar os efeitos das armas químicas durantes os protestos, que chegou a ser criminalizado durante o mês de junho). Por fim se encerra com uma convocação para o ato do dia 20-06  na cidade de Campinas.  Esse pequeno vídeo expressa exatamente o que estávamos discutindo: no símbolo da cultura hegemônica é inserida outra significação: “vem para rua” é uma convocação para uma rebelião, uma revolta e não para a “festa”. Essa intervenção no discurso hegemônico inverte a ideia de coesão no e pelo futebol, substituindo-a pela ideia de ação coletiva e conflito.

Durante os protestos ocorreu uma dialética específica entre dominação e violência simbólica. De um lado, se tentou reforçar a ideia da identidade nacional, de que o Brasil e os brasileiros estão contidos no futebol. Ao mesmo tempo se tentou impor a imagem do brasileiro cordial, passivo e pacífico e isso levou a criação de uma categoria: o vândalo-mascarado-anarquista, como símbolo do irracional e objeto da desqualificação e repressão; a criação dos Black Bloc foi então uma forma não somente de luta de rua, mas de resistência simbólica: o Black Bloc inverteu e positivou essas categorias, dando às mesmas o sentido de uma identidade coletiva popular.      

A tese liberal e elitista, interpreta junho como uma luta entre razão/desrazão; no caso, a participação da sociedade seria expressão do desenvolvimento de uma racionalidade política possibilitada pela modernização tecnológica (especialmente a internet); a desrazão ou irracionalidade seria representada pelas formas violentas de manifestação e organização, que não seriam capazes de compreender e participar do pacto social da república.  Por outro lado, o marxismo ortodoxo e heterodoxo, tenderam ou a concordar com a tese do irracionalismo, interpretando-a dentro da teoria da alienação. Dessa forma, os conflitos que surgiram em Junho e Julho, e as ações não somente contra o Estado, mas contra partidos e sindicatos, seriam expressão desse desencontro entre a ação da classe e sua consciência. Ao negar as formas de organização historicamente institucionalizadas, os manifestantes estariam negando a própria consciência de classe, ou seja, tal consciência só teria uma única expressão possível. As duas abordagens consideram então as formas de ação e organização como “não ou anti-políticas” e irracionais. Essas leituras retomam estereótipos muito antigos dos estudos dos movimentos de massa ou multitudinários. Um primeiro o estereótipo positivo, é o do “povo” enquanto sujeito de diretivos e da mudança (desde que enquadrados no conceito de ordem). O segundo estereótipo, negativo, da “turba”, que considera a multidão como um agregado de classes perigosas e violentas. Nesses dois estereótipos, que remetem às leituras sobre as revoluções e rebeliões populares da modernidade, a multidão surge como abstração desmaterializada e o mesmo pode ser dito sobre os movimentos multitudinários de junho de 2013 (Rudé, 1991).

Tais abordagens incorrem em diversos equívocos. Não somente cometem erros de interpretação, como não apresentam dados suficientes para fundamentar as afirmações e conclusões que realizam. Estão quase sempre baseadas em fontes do IBOPE e organismos de imprensa e tais fontes não são problematizadas em nenhum momento. Esta fragilidade empírica apenas reforça a fragilidade de suas teses principais. Essas teses interpretam o movimento multitudinário reduzindo-o a uma determinação unicausal: determinação psicológica no caso da visão liberal e elitista, determinação econômico-corporativa na abordagem do marxismo ortodoxo e heterodoxo. O movimento multitudinário de junho aparece então como uma abstração desmaterializada; como ação da sociedade civil que oscila entre a razão e a desrazão  ou como ação de uma classe trabalhadora que oscila entre a consciência e alienação. As contradições materiais e históricas da sociedade brasileira não têm lugar, nem mesmo a cultura e a subjetividade. Tentamos demonstrar com dados de diferentes naturezas como cultura, poder e mundo material se conjugam como determinações para a formação do movimento multitudinário de 2013.

Entendemos exatamente que a festa popular foi uma ocasião em que, uma série de contradições e antagonismos que vinham se acumulando na estrutura social do capitalismo flexível, se materializou. De um lado de um sistema econômico que produziu a marginalização nas relações de produção e consumo, com aumento do poder bancário e da financerização; por outro lado, ao contrário do que um olhar economicista induziria, um Estado mínimo não foi a realização principal do neoliberalismo, mas a intensificação do Estado penal. Por isso as ações coletivas expressam essas contradições estruturais do capitalismo flexível e do Estado penal, e longe se serem uma forma irracional ou alienada, constituem uma forma específica de reação de classe, a infrapolítica, aos modos de dominação e exploração.

As práticas de destruição de bancos e ônibus e etc., ao invés de serem uma “ação irracional” ou do conservadorismo do “lumpemproletariado” expressa sob determinado aspecto uma forma material de revolta contra as condições concretas de exploração, em que a sociedade é subordinada ao capital bancário e aos interesses da cadeia mercantil automobilística, incluindo os serviços de transportes urbanos. Podemos entender o drama social de Junho de 2013 como uma revolta complexa, mas talvez o seu núcleo nos permita dizer que ela foi uma revolta contra a expropriação material (promovida pela financeirização,  o domínio do capital bancário) e contra a expropriação moral que acompanhou os megaeventos (a transformação da ideologia e organização do futebol, especialmente, do espaço do estádio, com sua adequação aos padrão europeus que elevaram o preço dos ingressos e expulsaram os torcedores de baixa renda); o levante de junho iniciou uma espécie de “revolução cultural”, marcando uma ruptura com relação a um dos elementos constitutivos da cultura nacional hegemônica, qual seja, de que a sociedade brasileira está contida no futebol que é ao mesmo tempo meio e expressão de sua “coesão”, “democracia” e “ordem”. Essa revolução cultural silenciosa está ainda em curso.

Dessa forma, não é possível separar nos eventos uma dimensão idealizada, pura, que representaria o tipo ideal de ação política da sociedade civil ou da classe trabalhadora; as ações e organização devem ser compreendidas na sua totalidade dialética. Estamos falando de uma multiplicidade de formas de opressão, repressão e dominação; existem diversas relações de exploração e opressão material, e no nosso entendimento a opressão não se dá apenas na esfera da produção, mas também da circulação e essa relação de opressão dá a violência e destruição de bancos e ônibus não o caráter de violência performáticas mas sim de uma apropriação negativa (uma vez que o prejuízo pode ser visto como uma forma de negação da renda bancária e do lucro empresarial).

Por outro lado, a dominação simbólica imposta pela cultura hegemônica sofre a pressão de duas fontes diferentes; as condições materiais gerais e os modos particulares de vida e interpretação. A ideologia do futebol brasileiro foi assim subvertida pelas subculturas populares, emergindo uma liberdade criativa expresso no simbolismo do discurso oculto que criou a figura do Black Bloc como herói popular, negando assim o símbolo do vândalo-mascarado-anarquista como tipo ideal de criminoso.  A resistência simbólica, sem estar determinada de forma unilateral, faz parte de um mesmo conjunto de relações e contradições fora das quais não tem sentido.

O movimento multitudinário semi-insurrecional de Junho de 2013 explodiu durante uma festa popular, expressando em todos os domínios (política, cultura, economia) as contradições entre uma estrutura social hierárquica e centralizadora e uma antiestrutura que se pretende horizontal, democrática e igualitária (nas formas dos Black Bloc, Midias Alternativas, Oposições Sindicais). Em que medida essa antiestrutura dará surgimento a uma nova estrutura social horizontal, dependerá da capacidade de autoconsciência e estruturação dos próprios atores históricos.

 

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[1] Ruben Figueiredo consultor empresarial e associado de Fernando Henrique Cardoso.

[2] James Scott observa com muita propriedade pergunta, questionando a ideia de que as formas de resistência simbólica não estariam vinculadas a formas materiais de combate ao poder,¿por qué entonces tantas rebeliones de esclavos, de campesinos y de siervos empezaron precisa-mente durante esas fiestas periódicas (por ejemplo el carnaval…)? (Scott, 2000).

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2 respostas para A festa e a revolta: confrontando as leituras de junho de 2013 com uma antropologia política das rebeliões populares

  1. pedro disse:

    ótima leitura sobre as manifestações de junho de 2013. Mauro Iasi é um famoso sínico/oportunista, no ano seguinte veio como candidato a presidência, pq não se articulou para montar um bloco de esquerda nas eleições com outros partidos da Esquerda alternativa(PSOL,PSTU,PCO…)?Enfim… Gostaria de ter acessos aos relatórios de pesquisa sobre os protestos de junho, não encontrei na página. No texto ele é citado nesta parte: “…já que a formalização do emprego não significa a obtenção de direitos sociais e trabalhistas (para se ter uma visão mais detalhada sobre essas contradições com dados oriundos de pesquisa( socioeconômica, ver os Relatórios de Pesquisa sobre os Protestos de Junho do NEP).”

  2. NEP disse:

    Prezado, grato pela mensagem. Você pode procurar na página do NEP por relatórios de pesquisa – use a ferramenta de busca – e irão aparecer os dois relatórios. Obrigado.

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