Seminário debate crise do estado e do capitalismo, anarquismo e insurgências

_DSC1546

 

O 1º Seminário “Anarquismo: Pensamento e Práticas Insurgentes” foi um grande sucesso[1]. O Seminário contou com a participação de pelo menos 300 pessoas ao longo de três dias com média de 100 participantes presenciais. Além desses participantes, tivemos participação pela transmissão on line com cerca de 376 participantes pelo live stream ao longo dos três dias, totalizando então mais de 600 participantes. Os debates foram muito produtivos com um público muito ativo, que contribuiu para uma qualificação das temáticas.

1º Dia

_DSC1410

Mesa de abertura com Camila Jourdan, Andrey Ferreira e Wallace Moraes

Os professores Wallace Moraes, Camila Jourdan e Andrey Cordeiro Ferreira fizeram a mesa de abertura com o tema “Crise do Capitalismo, insurgências mundiais e o Levante Popular no Brasil”. Camila Jourdan abriu a mesa, falando da perseguição política, da criminalização como parte da crise de representação do Estado e de como esta crise pode ser lida a partir da contribuição da ontologia do pensamento anarquista. Segundo ela, a criminalização e o processo contra os 23 (forma pela qual são conhecidos os presos políticos da Copa da FIFA 2014) explicitou a profunda prática repressiva em que o anarquista figura como maior “ameaça” não pelo que eles reivindicam, mas pelo seu suposto objetivos “contra a ordem” (um trecho do processo policial ilustra bem isso).

_DSC1395

Camila Jourdan fala sobre os protestos e a criminalização

Wallace Moraes apresentou uma leitura crítica das interpretações realizada pelas ciências sociais brasileiras. “A interpretação do que aconteceu em junho de 2013 está em disputa, a história está em disputa”, afirmou. Ele observou a necessidade de fazer uma teoria das ruas e não apenas “sobre as ruas”, indicando como as leituras realizadas pelo viés liberal e social-democrata falham em conseguir capturar os sentidos e dinâmicas reais dos protestos. Ele mostrou como em grande medida essas leituras estão condicionadas pelo perfil sociológico da esquerda oficial no Brasil, enraizada na burocracia sindical e sem maior penetração nos setores populares, que foram os grandes protagonistas dos protestos. Ele observou também o declínio progressivo da força eleitoral da oposição de esquerda institucional (PCB, PSOL, PCO, PSTU que sendo insignificante nas urnas, tem menos votos que os pequenos partidos de direita foi também insignificante nas ruas de 2013) mostrando que falta de presença nas camadas populares precarizadas se reflete nas múltiplas dimensões da política, inclusive, na sua interpretação que tendeu a criminalizar e minimizar a importância dos protestos de junho. Andrey Cordeiro Ferreira, dando continuidade à problematização da crise da noção de Estado e representação, indicou que a ideia de representação surge dos pressupostos do liberalismo, conservadorismo e marxismo clássicos que consideram a liberdade como um “problema” (estado de natureza, caos) que só pode ser resolvida pela intervenção de uma autoridade organizadora (o Estado, o dirigente, o líder). Essa abordagem se cristalizou nas leituras sobre os protestos de junho de 2013. Para superar essa problemática, ele propôs retomar a dialética liberdade-autoridade desenvolvida por Proudhon e Bakunin, aplicando à análise dos protestos de junho de 2013. Ele demonstrou como essa dialética se expressou de duas formas: o antagonismo entre formas de estrutura social centralizadas (Partidos, Sindicatos Oficiais, Burocracia de Estado) que tentaram suprimir os protestos e criar representantes para os mesmos x formas descentralizadas de organização (como grupos Black Bloc, Assembleias Populares, Coletivos de Mídia). Além da dialética no plano organizativo, ele apontou que quase todas as análises abstraem as condições materiais e culturais da revolta de 2013: por um lado a financeirização, com endividamento das famílias e o domínio da indústria dos transportes no capitalismo brasileiro que explica em parte a destruição de bancos e ônibus; por outro lado, que os protestos de junho ocorreram durante a Festa da Copa das Confederações e Copa do Mundo da FIFA, componente essencial dos protestos de junho de 2013. Ele demonstrou como essa ocasião mobilizou uma luta simbólica entre uma autoridade da ideologia do futebol brasileiro (e o mito de que a sociedade brasileira obtém sua coesão e democracia no e pelo futebol) com a convocação para o brasileiro ir à rua mostrar seu sentimento nacionalista, e a liberdade da crítica, expressa na ruptura simbólica representada pelas formas de crítica da cultura popular (da qual a palavra de ordem “Não Vai Ter Copa” é talvez a melhor síntese). A dominação simbólica imposta pela cultura hegemônica sofre a pressão de duas fontes diferentes; as condições materiais gerais e os modos particulares de vida e interpretação. A ideologia do futebol brasileiro foi assim subvertida pelas subculturas populares, emergindo uma liberdade criativa expresso no simbolismo do discurso oculto que criou a figura do Black Bloc como herói popular, negando assim o símbolo do vândalo-mascarado-anarquista como tipo ideal de criminoso.  A resistência simbólica, sem estar determinada de forma unilateral, faz parte de um mesmo conjunto de relações e contradições fora das quais não tem sentido. O movimento multitudinário semi-insurrecional de Junho de 2013 explodiu durante uma festa popular, expressando em todos os domínios (política, cultura, economia) as contradições entre uma estrutura social hierárquica e centralizadora e uma antiestrutura que se pretende horizontal, democrática e igualitária (nas formas dos Black Bloc, Midias Alternativas, Oposições Sindicais). Em que medida essa antiestrutura dará surgimento a uma nova estrutura social horizontal, dependerá da capacidade de autoconsciência e estruturação dos próprios atores históricos.  Logo, junho pode ser entendido como uma luta entra a festa e a revolta, representando a autoridade da ideologia e cultura hegemônicas em luta contra a liberdade da cultura e da resistência popular.

Momento destacado foi a homenagem realizada à Igor Mendes e Elisa Quadros, presos e perseguidos políticos recém libertados ou saídos da clandestinidade que estiveram no seminário. Igor Mendes fez uma fala e o auditório também exigiu: “Presos Políticos: Liberdade Já!”

Igor Mendes falando sobre os protestos de junho e a repressão

_DSC1566

A segunda mesa do dia foi “Teoria Anarquista Clássica: Proudhon, Bakunin e os coletivistas na AIT” com Selmo Nascimento e Felipe Correa. Felipe Correa observou que a historiografia sobre o anarquismo é escassa e a que existe é normalmente ruim. Nesse sentido seria fundamental aprofundar a pesquisa e melhorar a metodologia de investigação do anarquismo. Nesse sentido, seu estudo da teoria de Bakunin usando documentos que não foram explorados (como o documento intitulado “Protesto da Aliança”) mostra a especificidade da teoria da organização em Bakunin, que abrangia a organização revolucionária e a organização dos trabalhadores.  Esse documento mostra exatamente como a teoria da organização de massas, ao contrário do marxismo e do nacionalismo que separam ontologicamente a luta econômica ou imediata da luta política (entendendo que os trabalhadores só podem ter uma consciência imediata e restrita), a teoria da organização da AIT previa a articulação de espaços organizativos distintos, em que predominavam o econômico em relação ao político (no caso das seções de ofício), e o político e ideológico em relação ao econômico (caso das seções centrais). Selmo Nascimento falou da teoria das greves e de como no interior do movimento de resistência dos trabalhadores, foi desenvolvida por proudhonistas, bakuninistas e coletivistas. Ele observou que o debate sobre as greves foi um componente central da constituição da AIT e do movimento operário e socialista.  Uma grande questão é que dentro da AIT, coletivistas desenvolveram uma reflexão sobre as greves que entendia que estas em si mesmas não eram um instrumento necessariamente emancipatório e que poderiam levar inclusive a divisões e assimetrias entre os trabalhadores. A solução elaborada pelos coletivistas foi exatamente desenvolver uma teoria da greve, a greve sendo uma tática exigia uma escola e teoria da guerra. Nesse sentido, a principal contribuição foi associar as greves ao anti-militarismo, ao contrário das greves serem apenas formas de luta

_DSC0028

Mesa sobre Teoria Anarquista Clássica

econômica elas deveriam ser usadas pelos trabalhadores em situação de guerra para parar a produção e evitar a agressão entre os Estados contra os povos. Ao mesmo tempo, essas greves anti-militaristas deveriam desembocar em insurreições. Essa teoria foi colocada em prática pela AIT, e a Comuna de Paris é um exemplo: contra a Guerra Franco-Prussiana foi organizada a greve geral insurrecional que resultou na Comuna de Paris. Em 1873 na Espanha foi uma organizada uma Greve Geral Insurrecional contra a ocupação do Marrocos pela Espanha. Ou seja, a greve era pensada como instrumento de solidariedade internacionalista e especialmente em apoio a povos e nacionalidades oprimidas em contexto de luta contra a colonização ou ocupação estrangeira.

 

2º dia

mesa3

Mesa sobre Autonomias e Insurgências Indígenas na América Latina

O segundo dia começou com a mesa “Autonomias e Insurgências Camponesas e Indígenas na América Latina”. O professor Arturo Lomeli, da Universidade Intercultural de Chiapas, mostrou dados sobre a onipresença dos povos indígenas na sociedade mexicana. Eles estão distribuídos em milhares de pueblos que são espaços em que se desenvolvem diferentes experiências de autonomia. Ele apontou para a necessidade de romper com a própria ideia de “homogeneidade” implícita na ideia de índio ou sociedade indígena. A categoria “indígena” é uma criação colonial; supor a homogeneidade ou uma tendência para a “autonomia”, ou que tais sociedades sejam repositórios de um tipo de comunismo primitivo é um equívoco. Foi nesse sentido que ele apresentou sua reflexão sobre o zapatismo. Ele mostrou que ao contrário do zapatismo ser uma espécie de manifestação da cultura tradicional ou uma mera forma de luta de “libertação nacional”, a organização das comunidades zapatistas é uma complexa articulação entre formas organizativas pré-coloniais (ameríndias), coloniais (espanholas) e pós-coloniais (nacionais), e que nesse sentido qualquer tentativa de restringir o zapatismo à apenas um elemento seria uma simplificação. Ele mostrou que um dos componentes fundamentais do zapatismo é que eles negam o Estado mexicano mas desenvolvem formas específicas de governo que para ele poderiam ser consideradas como um tipo de “Estado”. Essa caracterização coloca então toda uma série de problemas sociológicos para reflexão.

_DSC0320

Figura 5 – Rômulo Castro e Marcelo Rosa debatem Eurocentrismo e Questão Agrária.

 

Além disso ele observou que a construção do zapatismo parte de um conceito fundamental que é a noção de “serviço”, que inverte a relação de autoridade: o representante deveria servir ao interesse coletivo e não se servir dos recursos e espaços coletivos para benefício próprio. Esse conceito expressa o desenvolvimento de uma visão de mundo que ainda está em curso e uma prática de alternância da representação: o regime de circulação nas comunidades zapatistas fez com que em uma década pelo menos 35 mil pessoas tenham exercido algum cargo de representação, modificando assim a relação entre representante e representado. Logo, o zapatismo coloca uma série de contradições e problemas para refletir sobre a questão “É possível uma sociedade sem Estado?”

Lindomar Terena, membro da executiva nacional da APIB fez uma fala refletindo sobre as condições políticas e desafios enfrentados pelos povos indígenas no Brasil de hoje. Lindomar falou tanto da experiência geral dos povos indígenas ao enfrentarem as políticas do Estado brasileiro, quanto do povo Terena em particular que tem enfrentado uma violência sistemática. Ele observou que as lutas por terra caminharam com a criação de uma organização informal – os conselhos indígenas – que organizam as retomadas (ocupações de terra) e que estão em luta contra a política local e as burocracias que tentam neutralizar essa luta.  Ele comentou que no atual momento uma aliança entre trabalhadores sem-terra, povos indígenas e quilombolas é essencial, mas que infelizmente muitos ainda estão “junto com o inimigo”, se referindo ao domínio de uma aliança dos movimentos sociais do campo, como o MST, como o Governo e seu projeto desenvolvimentista. Nessa aliança os trabalhadores rurais, os sem-terra, os povos indígenas são sacrificados pelo projeto desenvolvimentista, mas essas organizações continuam defendendo o modelo econômico e o governo.

A mesa seguinte foi composta por Romulo Castro e Marcelo Rosa. Romulo Castro apresentou os resultados de sua pesquisa de doutorado (ainda em andamento) sobre a relação entre Industrialismo, eurocentrismo e política agrária. Ele indicou que uma das interpretações dominantes para explicar a contradição visível entre a violência contra indígenas e camponeses durante os Governo Lula, foi a tese da “traição”. Nessa tese, o Governo do PT, a CUT e outras centrais sindicais teriam traído compromissos históricos anteriores, como reforma agrária e demarcação de terras indígenas. Rômulo mostrou que essa visão é simplificadora e equivocada. Ele remontou a história da do modelo social-democrata de sindicalismo que é o que estruturou o PT e a CUT à história da social-democracia internacional (ao marxismo e republicanismo). Ele argumentou que a teoria social-democrata está assentada sobre uma concepção industrialista: a indústria é principal foco da modernização (liberalismo) e o operariado industrial é o sujeito da revolução por excelência. O campo e o campesinato eram sempre vistos como representantes do atraso; mesmo quando ocorreu alguma consideração sobre uma possível participação do campesinato e dos modos de produção pré-capitalistas para a construção do socialismo, isto só poderia acontecer com a difusão das forças produtivas (como no debate de Marx com os populistas russos).  Romulo falou também de como em diversas experiências se concebeu então uma aliança entra agricultura e indústria mediada pelo Estado, como ocorreu na Suécia. No caso do Brasil, a CUT e o PT reproduziram essa visão industrialista e aplicaram uma política de defesa da grande indústria nacional pela sua articulação com o agronegócio, o que possibilitou a expansão do setor automobilístico e da agroindústria. Essa aliança dos operários da indústria com o capital industrial ficou explícita a partir de 2008, quando a CUT fez juntamente com a ABIMAQ um pacto de proteção do emprego. Logo, muito além da traição o que ocorre é uma política de favorecimento da indústria e da industrialização da agricultura que visa eliminar o campesinato e os modos de produção pré-capitalistas. Essa política está ancorada numa longa tradição social-democrata de feticihização do operariado industrial e de aliança com a burguesia nacional para promoção da industrialização. Logo, as ofensivas contra povos indígenas e camponeses na América Latina, realizada sob Governos de Esquerda, tem profundas raízes no pensamento liberal e social-democrata que defendem a modernização pela industrialização. A crítica coletivista, de Bakunin por exemplo, já criticava no século XIX que a política social-democrata levava uma dupla política de opressão, do campo pela cidade e das minorias nacionais pelos Estados. Nesse sentido a leitura da questão agrária dessa ótica pode ser uma importante forma de crítica dos processos contemporâneos. Marcelo Rosa analisou a partir de sua experiência de pesquisa na África do Sul as relações entre LPM (Landless Peoples Movement ou Movimento Popular dos Sem-Terra) e o MST. Ele observou que essas relações em certa medida remetem ao mesmo problema analisado por Romulo: o MST ao encontrar uma situação diferente da do Brasil, em que os sem-terra eram também povos nativos que estavam na terra lutando para permanecer nela. Nesse encontro o MST tendeu a ver o LPM como “desorganizado”, uma vez que sua forma de luta principal se dava por meio de ações descentralizadas de pequenos grupos familiares que viviam em agregados em fazendas.  Essa ideia de um movimento social organizado e centralizado dos representantes do MST impediu a constituição de uma aliança internacional com o LPM da África do Sul. Esse mesmo problema foi colocado aos representantes da luta de libertação nacional no CNA (Congresso Nacional Africano) que tiveram uma extrema dificuldade para lidar com a luta dos trabalhadores do campo e dos povos. Na transição do Apartheid  para a atual democracia sul-africana Mandela, o CNA e a central sindical fizeram um pacto que sacrificava os interesses do campo: eles acordaram que as terras expropriadas pelo apartheid não seriam devolvidas e com isso deixaria a estrutura agrária intacta. Esse pacto permitiu que o CNA assumisse o poder com o prolongamento do racismo como princípio de expropriação territorial num pacto em que uma elite negra e a burocracia sindical sacrificaram os interesses dos povos e camponeses (como o LPM) num pacto de democratização conservadora. Um importante apontamento feito por Marcelo Rosa é que o caso da África do Sul mostra que na realidade a bandeira da reforma agrária deve ser superada; no compromisso que levou Mandela ao poder e permitiu a continuidade do racismo e da propriedade agrária se colocou na ordem do dia uma reforma agrária mercado. No entendimento de Marcelo Rosa os movimentos sociais rurais africanos avançaram na sua crítica e falam da reforma da terra, no sentido que o direito à terra não é apenas uma reivindicação produtiva, mas deve levar em conta as necessidades culturais, como a relação de pertencimento simbólico e ancestralidade. O eurocentrismo o racismo são parte de uma política de expropriação territorial e se realizam, inclusive, por meio de políticas de movimentos sociais e sindicais que não conseguem romper com o industrialismo e o fetiche do Estado interventor.

 

3º dia

_DSC0399

 

Lucien van der Walt

O último dia de seminário foi iniciado com a conferência do professor Lucien van der Walt, da Universidade de Rhodes (África do Sul). A conferência abordou a necessidade de uma conceituação teórica do anarquismo, que para Van der Walt, deve se referenciar ao contexto da Associação Internacional dos Trabalhadores. A AIT foi o espaço de formação do que o professor denomina de “grande tradição anarquista”, que abrangem ao mesmo tempo o anarquismo como uma teoria e prática de organizativa revolucionária e uma atividade de resistência de massas, o sindicalismo. A partir de então o anarquismo se difundiu pelo mundo a partir de diferentes redes regionais, na América Latina, Ásia e África. Um importante ponto então é que o anarquismo não teria sido uma força importante apenas na Espanha (tese da excepcionalidade do anarquismo espanhol), mas um fenômeno mundial importante especialmente nos países periféricos. O anarquismo tendeu a se difundir especialmente através das lutas em defesa de minorias nacionais e grupos étnicos, como aconteceu na China, Coréia e outros países da Ásia. A importância do anarquismo foi de duas ordens> no plano das instituições, nas quais se destacam as organizações de resistência como os sindicatos, as forças armadas ou milícias populares e instituições educacionais. Ao contrário de outras correntes do movimento socialista, o anarquismo se difundiu  por meio de organizações formais e informais. Além disso, o anarquismo influenciou o pensamento artístico e científico. A principal contribuição de van der Walt foi observar que o anarquismo se expandiu na América pós-colonial e na África e Ásia pré-colonial do século XIX. Esse caráter influenciou profundamente o anarquismo, existindo uma série de contribuições locais de pensadores da periferia e de experiências de luta que precisam ser reconhecidas como parte da história global. Na sequencia tivemos a conferência com Ação Revolucionária Anarquista (DAF) da Turquia (interrompida por perda de sinal de internet), mas foi importante observar que a história das lutas sociais e do anarquismo remontam aos anos 1920, quando as revoltas dos anarquistas na Bulgária atingiram o Império Otomano e ajudaram a fazer chegar as primeiras ideias anarquistas na Turquia. Porém o anarquismo tal como existe hoje na Turquia surgiu nos anos 1980 e vem se fortalecendo nos protestos populares.

_DSC0457

Breno Bringel na mesa de encerramento

A mesa de encerramento com o professor Breno Bringel abordou os protestos de 2010-2012 na Espanha e o surgimentos dos Indignados/15 M. Breno observou que os protestos na Espanha se deram no contexto das comemorações dos 100 anos da CNT (Confederação Nacional do Trabalho, fundada em 1910) e num país com fortes tradições de luta autonomistas e libertárias. Apesar disso, quando explodiu o movimento dos indignados/13 M muitos dos setores da esquerda e mesmos os libertários tiveram uma grande dificuldade em entender e se articular com tal movimento. Num primeiro momento, ocorreu uma confluência dos grupos para os indignados e para o movimento de massas que se difundiu e popularizou na Espanha; esse movimento apresentou características similares às do Brasil: crítica dos partidos e sindicatos, desconfiança das organizações. Entretanto, por mais paradoxal que possa parecer, na Espanha um movimento de tipo social-democrata surgiu e tentou capitalizar organizativamente o fenômeno dos indignados; um conjunto de intelectuais e professores lançou a proposta do “Podemos”, de criação de um novo Partido de Massas que deveria reconstruir  a utopia do “Estado de Bem Estar Social”. Apesar da crise de representação do Estado e da desconfiança das organizações, o Podemos cresceu e vem se institucionalizando  pode ganhar as eleições na Espanha. Logo, a crise de representação e as insurgências não levam necessariamente a uma ruptura com as organizações e projetos social-democratas, nem a existe de tradições libertárias a uma difusão de um projeto revolucionário. Ao contrário, muitos dos grupo libertários e autonomistas estão convergindo para o Podemos e defendendo uma espécie de “municipalismo”, ou a tentativa de fortalecer a política social-democrata pelo nível local e não nacional. Logo, as insurgências na Europa e na periferia estão colocando diferentes desafios e mostram diferentes desenlaces para a crise do Estado e do capitalismo, inclusive, o renascimento do projeto social-democrata clássico.

O seminário APPI levantou muitas questões e hipóteses para pensar cientificamente a crise do Estado e do capitalismo. Apontou para como a teoria anarquista clássica pode ajudar na compreensão dessa crise e no desenho de novas alternativas. Apresentou também o espaço para aliança de saberes subalternos que se insurgem contra as teses dominantes e contra o eurocentrismo e colonialismo das análises e das políticas hegemônicas. No segundo semestre essas contribuições serão publicadas em livro, que esperamos que possam auxiliar na formação dos estudantes de ciências humanas e sociais. E no ano de 2017 esperamos poder realizar a segunda edição do seminário em comemoração aos 100 da revolução russa e do ciclo mundial de greves.

[1] O NEP agradece a todos que participaram da Comissão Organizadora e trabalharam pela realização do evento. Agradece também aos palestrantes, convidados e inscritos que ajudaram a financiar o evento. Apesar de contar com apoio da FAPERJ, em razão do ajuste fiscal os recursos não foram liberados e foi graças as inscrições e apoio de instituições como o Colégio Pedro II (especialmente Departamento de Sociologia) que o evento foi possível. Pedimos desculpas pelos problemas técnicos com a internet da universidade que levaram a falhas na transmissão e também por outros problemas localizados que tentaram ser sanados pelo NEP. De toda forma o evento alcançou seus objetivos.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s