Da criação da ordem na humanidade ou Princípios de organização política

Pierre-Joseph_Proudhon

O NEP está realizando, como parte do projeto “Saberes subalternos, insurgentes e descoloniais” a tradução de diversas obras consideradas essenciais ao desenvolvimento de um pensamento crítico-insurgente. Aqui apresentamos um pequeno fragmento da tradução do livro “Da criação da ordem na humanidade”, de PJ Proudhon que será incluído na próxima publicação do NEP. A tradução é de autoria de Tadeu Toniatti.

Como citar: “Da criação da ordem na Humanidade”, Pierre-Joseph Proudhon, Tradução Toniatti, Tadeu Bernardes de Souza. Núcleo de Estudos do Poder-UFRRJ, Rio de Janeiro, 2015

 

PJ Proudhon

DEFINIÇÕES

  1. Chamo de ORDEM qualquer disposição seriada ou simétrica.

A ordem supõe, necessariamente, divisão, distinção, diferença. Nenhuma coisa indivisa, indistinta, não diferenciada, pode ser concebida como ordenada: estas noções se excluem reciprocamente[1].

  1. As ideias de inteligência e de causa final são estrangeiras à concepção de ordem. Efetivamente, a ordem pode nos aparecer como resultado não previsto das propriedades inerentes às diversas partes de um todo: a inteligência só pode, neste caso, ser delimitada como princípio de ordem. – Por outro lado, pode existir na desordem uma tendência ou um fim secreto: a finalidade não saberia melhor ser pega como caráter essencial da ordem.

Sendo assim, a consideração do universo, do ponto de vista em que o tomaram Bossuet, Fénelon, Cícero, não é um argumento da existência de Deus; assim como a desordem social, tal que nos é apresentada pela história, não é prova contra a Providência.

 

  1. A ordem é a condição suprema de toda persistência, de todo desenvolvimento, de toda perfeição.
  2. A ordem, em suas manifestações diversas, sendo série, simetria, relação, está submetida a condições nas quais pode ser decomposta, e que são como seu princípio imediato, sua forma, sua razão, seu metro. Estas condições são o que é chamado de leis. – Assim, tomando o círculo como um todo ordenado, a igualdade fixa do raio gerador sera a lei. Na série aritmética 3,5,7,9,11……., a lei ou razão é 2.
  3. A expressão de uma lei, ou sua descrição, é uma fórmula.
  4. Toda lei verdadeira é absoluta e não excetua nada: a ignorância ou a inépcia dos gramáticos, moralistas, jurisconsultos e outros filósofos, foi a única a imaginar o provérbio: Nada de regra sem exceção. A mania de impor regras à natureza, em lugar de estudar as dela, confirmou mais tarde este aforismo da ignorância. – Nas ciências matemáticas e naturais, é admitido que toda lei que não abraça a universalidade dos fatos é uma lei falsa, uma lei nula: é da mesma forma para todas as outras ciências.
  5. A ordem não é algo de real, mas somente de formal: é a ideia inscrita na substância, o pensamento exprimido sob cada coleção, série, organismo, gênero e espécie, como a palavra na escrita.
  6. A ordem é tudo o que o homem pode saber do universo.

Considerando a criação segundo as três categorias de substância, causa, relação, chegamos ao resultado que os seres perceptíveis para nós pelas relações que sustentamos com eles nos permanecem impenetráveis em sua substância; que as causas, inapreensíveis em seu princípio e sua origem, nos deixam entrever apenas a sucessão de seus efeitos. As relações das coisas, a ordem e a desordem, o belo e o feio, o bem e o mal, eis aí tudo o que cai sob a observação do homem tudo o que é objeto de sua ciência.

Das três faces do universo, então, apenas uma nos é inteligível: as duas outras são, da nossa parte, objeto de uma fé cega, fatal. A ontologia, enquanto ciência das substâncias e das causas, é impossível[2].

  1. Nós conhecemos dos seres apenas as suas relações: entretanto, como é necessário, para as demandas da ciência, distinguir sob cada uma de suas faces este grande todo que nomeamos Universo, demos nomes especiais às coisas conhecidas e às desconhecidas, às visíveis e às invisíveis, àquelas que sabemos, e àquelas que acreditamos.

Assim, chamamos substância a matéria, seja qual for, de qualquer série, de qualquer organização; o princípio de toda inércia ou resistência. Em um relógio, por exemplo, a substância é o ferro, o cobre, numa palavra, os materiais diversos de que este relógio é composto[3].

  1. Entendemos por causa a força primitiva que determina uma mudança de estado, uma produção de ordem ou de desordem, numa palavra, um movimento. – Os filósofos, por extrapolação, considerando os diferentes termos de uma sequência móvel como causa uns dos outros, acreditaram poder, com a ajuda destas pretensas causas segundas, elevar-se até o conhecimento das primeiras. Mas é fácil ver quanto, tomando relações por causas, eles se iludiam. A causa que faz andar a agulha de um relógio, segundo sua maneira de ver, é uma roda que gira; a causa que faz girar a roda é uma corrente enrolada em um eixo; a causa que faz a corrente se desenrolar é um peso que a puxa; a causa que faz cair o peso é a atração; a causa da atração….. é desconhecida. Ora, todas estas causas são termos de uma sequência mecânica produzida no domínio da força, como um poliedro de cera ou de marfim é uma ordem geométrica produzida no domínio da substância. Assim como a matéria não muda com os formatos que lhe damos e os usos aos quais a empregamos; da mesma forma a força não varia, ou seja, não se classifica, segundo as séries das quais pode ser o substratum, o sujeito. O erro não é, pois, nomear a substância e a causa[4]; mas somente aspirar a conhecê-las, e pretender explicá-las.
  2. Propriedade, qualidade, modo e fenômeno são expressões correlativas de substância e de causa, e servem[5] para designar aquilo em que uma e outra são perceptíveis, ou seja, a ordem ou a desordem que apresentam.
  3. Há uma ordem, ou sistema natural dos corpos celestes, demonstrada por Newton;

Um sistema das plantas, reconhecido por de Jussieu;

Um sistema de zoologia, do qual Cuvier é o principal inventor;

Um sistema de química, que Lavoisier formulou mais ou menos completamente;

Um sistema de numeração reconhecido desde a mais alta antiguidade;

Sistemas de composição molecular, de reprodução orgânica, de cosmogonia, de gramática, de arte e de literatura, ainda pouco conhecidos, mas que tendem, todos, a se descobrir dos véus que os cobrem, e a se constituir de uma maneira absoluta.

Da mesma forma, existe um sistema natural de economia social, entrevisto ou pressentido pelos legisladores, que se esforçaram para conformar a ele suas leis: sistema que a cada dia a humanidade realiza, e que me proponho a reconhecer.

  1. A ordem se produz, nos seres inorganizados ou privados de razão, em virtude de forças inconsistentes, cegas, infalíveis, e segundo leis desconhecidas por eles próprios; – nos seres razoáveis, em virtude de forças que sentem a si mesmas, e que, por esta razão, estão sujeitas a desviar, e segundo leis que estes seres são chamados a conhecer.

Em outros termos, os seres brutos obedecem às suas leis sem ter a inteligência disto: a Humanidade só se organiza através do conhecimento reflexivo, e, se posso dizê-lo assim, através da elaboração que ela própria faz de suas leis.

Ora, esta inteligência de nossas leis, não a obtemos de uma maneira instantânea, e através de uma percepção maquinal; mas por um longo esforço de contemplação, de pesquisa, e de método. Daí, três grandes épocas na formação do conhecimento humano, a Religião, a Filosofia, a Ciência.

  1. Chamo de Religião a expressão instintiva, simbólica e sumária, pela qual uma sociedade nascente manifesta sua opinião sobre a ordem universal.

Em outros termos, a Religião é o conjunto das relações que o homem, no berço da civilização, imagina existir entre ele, o Universo e Deus, o Ordenador supremo.

De um ponto de vista menos geral, a Religião é em todas as coisas o pressentimento de uma verdade.

O princípio de qualquer religião é o sentimento; seu caráter essencial, a espontaneidade; suas provas, aparições e prodígios; seu método, a fé. A demonstração analítica e a certeza racional são o oposto do espírito religioso.

Segue-se daí que a Religião é de natureza imóvel, sonhadora, intolerante, antipática à pesquisa e ao estudo, que tem horror da ciência assim como das novidades e do progresso. Pois duvidar ou filosofar, aos olhos da religião, é colocar-se voluntariamente na disposição próxima de não mais crer; raciocinar é pretender descobrir os segredos de Deus; especular é abolir em si os sentimentos de admiração e de amor, de candura e de obediência, que são o que define o crente; é taxar de insuficiência a revelação primitiva, enfraquecer as aspirações da alma em direção ao infinito, desconfiar da Providência, e substituir à humilde oração de Filemon a revolta de Prometeu.

  1. Entendo por Filosofia esta aspiração a conhecer, este movimento do espírito em direção da ciência, que sucede à espontaneidade religiosa, e se coloca como antítese da fé: aspiração e movimento que não são ainda nem ciência nem método, mas investigação de uma e do outro. Daí o nome de filosofia, amor ou desejo da ciência: daí também a sinonímia primitiva das palavras filósofo e cético, ou seja, pesquisador.

O princípio da Filosofia é a ideia de causalidade; seu caráter especial, a superstição; seu procedimento, a sofística: explicarei seu mecanismo e seu mistério.

  1. A religião e a filosofia têm em comum o fato de abraçarem o universo em suas contemplações e suas pesquisas, o que lhes retira qualquer especialidade, e por isto mesmo qualquer realidade científica; que em suas elocubrações ou suas fantasias elas procedem a priori, descendo sem cessar, por certo artifício retórico, das causas aos efeitos, ou subindo dos efeitos às causas, e fundindo-se constantemente, uma sobre a ideia hipotética e indeterminada de Deus, de seus atributos, de seus desígnios; a outra sobre generalidades ontológicas, desprovidas de consistência e de fecundidade.

Mas a religião e a filosofia diferem na medida em que a primeira, produto da espontaneidade, obra algumas vezes de um instante, é por natureza imutável e só recebe modificação pela influência de causas estranhas: enquanto que a outra, produto da curiosidade e da reflexão, varia segundo os objetos, muda ao sabor da experiência, e sempre estendendo o círculo de suas ideias, retificando seus procedimentos e seus métodos, acaba por se esvanecer na ciência.

 

  1. Chamo Ciência a compreensão, clara, completa, certeira e arrazoada da ordem.

O caráter próprio da Ciência, ao contrário da religião e da filosofia, é ser especial, e, segundo esta especialidade, ter um método de invenção e de demonstração que exclua a dúvida e não deixe nada para a hipótese.

Relativamente à religião e à filosofia, a Ciência é a interpretação dos símbolos da primeira, a solução dos problemas colocados pela segunda.

Em algumas partes de seu vasto domínio, a Ciência ainda está apenas despontando; em outras, está se elaborando; em quase todas, não nos é dado acabá-la. Mas, tal como a podemos adquirir, a Ciência basta ao exercício de nossa razão, ao cumprimento de nossa missão terrestre, às imortais esperanças de nossas almas.

Em todo lugar em que a Ciência ainda não cravou suas primeiras estacas, há religião ou filosofia, ou seja, ignorância ou decepção[6].

  1. Chamarei de Metafísica a teoria universal e suprema da ordem; os métodos próprios às diversas ciências são todos aplicações especiais desta teoria. Assim, a geometria e a aritmética são duas dependências da Metafísica, que dá a cada uma delas a certeza, e as abraça em sua generalidade.
    O objeto da Metafísica é, 1) dar métodos para os ramos de estudos que carecem deles, e consequentemente criar a ciência ali onde a religião e a filosofia a chamam;
    2) Mostrar o critério absoluto da verdade;
    3) Fornecer conclusões sobre o fim comum das ciências, ou seja, sobre o enigma deste mundo, e o destino ulterior do gênero humano.
  2. Entendo por Progresso a marcha ascencional do espírito em direção à Ciência, pelas três épocas consecutivas da Religião, Filosofia, e Metafísica ou método.

Em consequência disto, o Progresso não se trata da acumulação das descobertas que o tempo traz em cada especialidade, mas da constituição e da própria determinação das ciências.

A observação do Progresso, em muitos casos, é indispensável para a descoberta da Ordem: por isto faremos anteceder nossos elementos de metafísica de uma revista sumária da religião e da filosofia; por isto, mais tarde, a ciência social só andará com a ajuda da legislação comparada e da história[7].

Corolários das definições.

  1. Não podemos nem penetrar as substâncias, nem apreender as causas: o que percebemos da natureza é sempre, no fundo, lei ou relação, nada mais. Todos os nossos conhecimentos são definitivamente percepções da ordem ou da desordem, do bem ou do mal; todas as nossas ideias de representações de coisas inteligíveis, portanto, elementos de cálculo e de método. Até mesmo nossas sensações são apenas uma visão mais ou menos clara de relações, sejam elas exteriores, sejam interiores, sejam simpáticas. Ver e sentir são uma única e mesma coisa: temos uma prova percutante disto nos sonhos. De forma que, como o eu não possui realmente nada, de qualquer modo que se aproxime dos objetos através dos sentidos; como não penetra e não assimila nada, a felicidade para nós, o gozo, o mais alto contentamento, se reduzem a uma visão. Faça o homem o que fizer, sua vida é toda intelectual; o organismo e o que acontece nele são apenas o meio que torna esta visão possível.

Em nossa condição atual, a energia demasiado fraca de nossas faculdades nos permite apenas em parte suplementar pelo entendimento as sensações: mas quem sabe se, num outro sistema de existência, o prazer e a dor não seriam coisas puramente inteligíveis, e cuja percepção, não precisando de nenhuma excitação orgânica, dependeria apenas de um ato da vontade?

Mas descartemos a psicologia.

  1. Concebemos um momento em que o Universo seja apenas um todo homogêneo, idêntico, indiferenciado, um caos, para dizer tudo: a Criação nos aparecerá sob a ideia de separação, distinção, circunscrição, diferença; a Ordem será a série, ou seja, a figura, as leis e as relações, segundo as quais cada ser criado se separará do todo indiviso. Sejam quas forem, então, a Natureza divisora e a Natureza dividida, a causa eficiente e a matéria, o agente e o paciente, não podemos negar nada, afirmar nada de um nem do outro. O espírito involuntariamente os supõe, e se lança até eles: este impulso de inteligência nos revela uma realidade substancial e uma realidade causadora, e veremos mais tarde como, sem nunca as conhecer, podemos adquirir a certeza destas duas qualidades. Mas nossa ciência não permanece menos limitada, por isso, à observação da ordem, das relações e das leis: consequentemente toda disputa sobre a eternidade da matéria ou sua extração do nada; sobre a eficácia da causa primeira para produzir esta extração, e o modo do ato criador; sobre a identidade ou a não-identidade da força produtora e da coisa produzida, da causa e do fenômeno, do eu e do não-eu, deve ser banida da ciência, e abandonada à religião e à filosofia.

Para nossa inteligência, numa palavra, criar é produzir ordem: neste sentido, podemos dizer que a criação não se limitou aos seis dias de Moisés, e que a obra do sétimo dia, o maior dos trabalhos do eterno Poeta, a ordem na sociedade, está-se cumprindo.

A produção da ordem: tal é o objeto da metafísica.

 

  1. Colocado frente às coisas, e posto em relação com a Ordem universal ou o Mundo, primeiro o Homem se espanta e adora; pouco a pouco sua curiosidade se desperta, e ele se põe a detalhar o grande todo cujo aspecto, no primeiro momento, o subjuga, e lhe tira a reflexão e o pensamento.

Logo o sentimento de sua atividade pessoal lhe tendo feito distinguir a força da substância, e o fenômeno da causa, depois de ter adorado a Natureza, o Homem se diz que o mundo que admira é apenas um efeito; que não é esta causa inteligente que procuram o seu coração e o seu pensamento; e é então que sua almase lança para além do visível, e mergulha nas profundidades do infinito.

A ideia de Deus, no homem, é objeto de um incansável trabalho, incessantemente retificado, incessantemente retomado. Este Ser supremo, o homem o trata como todos os outros seres submetidos ao seu estudo: ele quer penetrá-lo tanto em sua substância quanto em sua ação, ou seja, naquilo que as próprias criaturas têm de mais impenetrável. Daí esta multidão de monstros e de ídolos que o espírito humano decorou com o nome de divindades, e que a tocha da ciência deve fazer esvanecer para sempre.

Determinar através do método universal, sobre os dados de todas as ciências, e segundo as reformas sucessivas que terá sofrido a ideia de Deus ao passar pela religião e a filosofia, o que a razão pode afirmar do Ser soberano que a consciência crê e distingue do mundo, mas que nada faz perceber, eis o que deve o que pode ser uma teodiceia.

 

  1. Religião, Filosofia, Ciência; a fé, o sofismo e o método: tais são os três momentos da consciência, as três épocas da educação do gênero humano.

Consulte a história: toda sociedade começa começa por um período religioso; interrogue os filósofos, os sábios, aqueles que pensam e que raciocinam: todos lhe dirão que foram, numa certa época, e por mais ou menos tempo, religiosos. Viu-se nações se imobilizarem em suas crenças primitivas; quanto a estas, nenhum progresso. – Encontramos todos os dias homens teimosos em sua fé, mesmo que muito esclarecidos de resto: quanto a eles, nada de ciência política, nada de ideias morais, nada de inteligência do homem. Sentimentos, contemplações, terrores e medos: eis o seu quinhão.

Outros, depois de terem dado alguns passos, param nos primeiros lampejos filosóficos; ou então, atemorizados pela imensidão da tarefa, se desesperam de caminhar e se repousam na dúvida: é a categoria dos iluminados, dos místicos, dos sofistas, dos mentirosos e dos covardes.

[1] Segundo os ecléticos, a ordem é a unidade na multiplicidade. Esta definição é correta: entretanto, parece-me que pode ser criticada porque traduz a coisa, mas não a define. O que é que produz a unidade na multiplicidade? a série, a simetria. (Nota do autor)

[2] Os animais estão abaixo da condição do homem; eles não percebem as relações entre as coisas, eles não sabem nada. O que se passa neles que tomamos por inteligência é apenas um instinto aperfeiçoado pelo hábito, uma espécie de sonho provocado pelo meio ambiente, e que não supõe nem meditação nem ciência. Como para o sonâmbulo, o pensamento nos animais não conhece a si mesmo; é orgânico e espontâneo, mas não consciente nem refletido.

[3] Essência relaciona-se mais com a disposição e o objetivo do que com a matéria, e entende-se do conjunto das partes, e não dos elementos constituintes da coisa. A substância de um relógio pode ser a mesma do que a de um espeto giratório*: mas a essência da primeira consiste numa combinação cujo objetivo é marcar as divisões do tempo; a essência do segundo é simplesmente produzir um movimento de rotação contínuo, sem periodicidade. (*) N. do T.: antigamente, os espetos giratórios funcionavam à base de um mecanismo de relojoaria.

[4] Ver mais embaixo, cap. III, parágrafo 7. (N.d.A)

[5] No original, “servant” [servindo]. Supõe-se erro de digitação na palavra “servent” [servem]. (Nota do tradutor)

[6] O estatuário, entre os antigos, escrevia em suas obras a palavra faciebat, trabalhava, para indicar que ele não os via nunca como acabados: assim, o amigo da verdade, sempre em alerta contra o sofismo e a ilusão, pode se dizer filósofo; sábio, nunca. Mas a vaidade moderna tornou a denominação de filósofo ambiciosa, e a de sábio, modesta: os sábios de hoje só se estimam na medida em que se acreditam filósofos: o mais puro da ciência, eles o chamam de filosofia.

[7] Quando, durante esta obra, me sirvo das palavras sacerdotes, filósofos, homens do poder, etc., não estou designando, sob estes nomes, classes de cidadãos, e não estou fazendo nenhuma categoria de pessoas. Entendo por eles personagens abstratos, que considero unicamente do ponto de vista de seu estado, dos preconceitos que lhe são próprios, do caráter e dos hábitos que ele dá ao homem: não estou descrevendo realidades, nem processando indivíduos.

Assim, apesar de o espírito religioso ser contrário à ciência, à caridade e ao progresso, sei que há sacerdotes muito sábios, muito tolerantes, e singularmente progressivos: ouso até dizer que o clero, nem que seja para a defesa de suas doutrinas, é de todas as corporações a mais curiosa por ciência, e que a maior parte de nossos sacerdotes começam a não ser mais sacerdotes.

Igualmente, a despeito da ontologia e da sofística, que eles são encarregados de ensinar, não faltam filósofos para rir da filosofia, e sábios para além de palavras: afirmo até que hoje todo filósofo homem de bem não é nada filósofo.

Direi que os agentes do poder, apesar de seu caráter oficial de conservadores e de dinásticos estão, pelo espírito e pela tendência de suas funções, bem perto da democracia e da igualdade? Confesso, quanto a mim, que sou daqueles que, certos ou errados, não puderam se desfazer, com relação ao governo de julho, de algumas precauções ou desconfianças: reconheço de bom grado, entretanto, que muitas coisas acontecem ali num sentido completamente reformista, e que em muitos casos o governo pode se dizer mais progressivo do que seus adversários.

Enfim, para completar esta apologia, será preciso convir que há sábios de hábitos detestáveis e de um odioso caráter? Mas qual é a necessidade de lembrar o mal quando há tanto bem a se dizer? Não, não preciso me desculpar frente aos homens, já que só estou fazendo a guerra aos preconceitos. Os homens são bons, benévolos, excelentes; eles nunca me quererão mal: só temo suas máscaras e seus costumes.

Neste tempo de poderes mal definidos, de instituições falhas, de leis equívocas e de ciências falsas, eu precisava fazer esta declaração.

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